Em meados da década de 1990, João Paulo II começou a ter cada vez mais dificuldades em andar: percorrer uma pequena distância exigia-lhe cada vez mais tempo. Em 1994, durante os trabalhos dos Sínodo dos Bispos, o Papa chegou com dificuldade à mesa da presidência e murmurou: (“Eppur si muove” (E apesar de tudo, move-se...”)”
Nos círculos da Cúria, conta-se esta anedota:
- Qual é a diferença entre o Papa e o Espírito Santo?
- ???
- O Espírito Santo está em toda a parte...
- E o Papa?
- Já lá esteve.
In PONIEWIERSKI, Janusz e TURNAU, Jan, Recordações de João Paulo II, Lucerna, Lisboa, Maio de 2005
Este é um livro único sobre o Papa. Os seus autores recolheram cerca de uma centena de histórias e episódios que dão conta de acontecimentos da vida de Karol Wojtyla.
São acontecimentos conhecidos e desconhecidos, ora divertidos, ora reflexivos e comoventes. A leitura deste livro demonstra que o carisma do Papa não se manifestava apenas nos seus discursos oficiais, mas também nas situações informais do quotidiano, nas quais recorria frequentemente a um apuradíssimo sentido de humor.
Trata-se de um livro que atesta a sua invulgar personalidade em todas as fases da sua vida, desde a infância até ao seu pontificado. “Não houve outro como ele!” era um comentário que habitualmente se ouve acerca de João Paulo II.
Mas o que viam nele de extraordinário as pessoas mais simples? O que tinha ele de especial? Oração, humildade e pobreza. Levantava-se de manhã, caminhava lentamente pela vereda rumo a Wiatrowice ou andava com um livro em volta da igreja, a rezar.
E a pobreza? Quando fazia visitas pastorais às casas dos fiéis, entregava aos pobres o que recebia dos ricos. Voltava à casa paroquial de mãos a abanar. Visitava constantemente os pobres. Havia uma mulher a quem chamavam Tadeuszka. Uma vez, foi ter com ele para se queixar, porque tinha sido roubada. E ele deu-lhe tudo o que tinha. Até a almofada e a roupa de cama. As pessoas até ficaram zangadas: tinham acabado de comprar tudo aquilo para ele, porque dormia numa cama sem nada...
E humildade? Sabia falar com qualquer um, apesar de já ter terminado o curso em Roma.
Recordações de João Paulo II é um livro que encerra contos com alma. A verdadeira riqueza destes pequenos contos consiste em abrirem as portas do mistério do homem sobre o qual falam. E por esta razão encontram-se aqui também histórias que, graça não têm, mas podem comover, podem inspirar à reflexão.
Claro, aqui estão igualmente histórias com piada, encontramos o testemunho da enorme distância de Karol Wojtyla / João Paulo II para consigo próprio e para com a função que lhe coube cumprir. Fala disto uma história na qual o Papa diz ao amigo polaco que o visitou: “Espera aqui por mim, tenho que papear um pouco”. Fala disto igualmente o encontro de Wadowice em que não passou desapercebido o rosto de um homem feliz ao recordar os bolos de creme da infância e aquele gesto com a mão, quando um dos padres interrompeu ao Papa o diálogo cordial com a multidão para o apressar a continuar a celebração. E a “paródia” desinteressada que fez diante o fotógrafo de quem é a autoria da foto que vem reproduzida na capa deste livro.